Artigo
Governança e redes socioambientais na Amazônia
Por Alberto Teixeira da Silva em 21/02/2004
Fonte: Ambiente Global
As sociedades contemporâneas estão sendo desafiadas pela aceleração dos processos de globalização, nas suas múltiplas formas, que estabelecem fluxos contínuos de idéias, informações, investimentos e poder. As configurações sociais e políticas tendem a se intensificar e as articulações em torno do poder do conhecimento e estratégias parecem cada vez mais vitais para a gestão da sociedade do futuro. A forma de expressão da dinâmica política do capitalismo global tem se dado através da constituição de redes, correspondendo aos interesses dos grupos sociais numa determinada formação histórica. Com o processo de globalização da sociedade civil, amplia-se consideravelmente a esfera pública, no sentido de modelagem de novos espaços de democratização dos processos de decisão e gestão. Uma análise do papel e atuação da sociedade civil organizada permite aprofundar um dos aspectos mais relevantes na dinâmica da esfera pública e, por conseguinte, da democratização da governança na Amazônia: a organização e mobilização de Ongs em redes sociais em diversos níveis hierárquicos, como atores sócio-políticos significativos na contemporaneidade. Embora o chamado 'terceiro setor' não seja uma questão inteiramente nova, em contraposição ao Mercado (primeiro setor) e ao Estado (segundo setor), o fato é que as Ong's como expressão da emergente sociedade civil, tem alcançado um espaço significativo de ação e legitimidade sócio-política frente aos desafios da realidade contemporânea, notadamente questões ambientais, direitos humanos, migrações, educação, saúde, questões de gênero, etc. A atuação das Ong's nos diferentes níveis (regional, nacional e global) tem ousado pela capacidade de pressionar e influenciar decisões importantes no âmbito de negociações domésticas e transfronteiriças, em alguns casos, tendo uma importância capital em desdobramentos futuros. Do ponto de vista quantitativo e qualitativo, as Ong's vão cada vez mais expandindo suas atividades e conexões, sendo muito comum a associação de Ong's em redes que aumentam sua eficácia e campo de atuação. O fato novo é que as Ong's estão muito presentes nas negociações e implementação de ações locais e globais. A Amazônia, como espaço moldado por forças e movimentos socioambientais locais e transnacionais, tem se projetado como palco de conexões - redes da sociedade civil, na busca de intervir no processo de desenvolvimento da região e direcioná-lo em prol de um modelo de sociedade que internalize as dimensões da sustentabilidade. Neste sentido, desde a década de 1980, com a disseminação de uma consciência socioambiental gradual e progressiva, permeando mentalidades, coletividades e estruturas, emerge uma vitalidade de grupos e organizações inicialmente ambientalistas, que paulatinamente vão articulando um movimento mais plural comprometidos com o ideário do desenvolvimento sustentável. O conjunto das transformações no período recente da Amazônia mostra o embrião de um novo padrão de governança, tendo uma sociedade civil global em plena articulação e expansão, apontando para uma ação política cada vez mais policêntrica. Um exemplo bem concreto tem sido a mobilização da sociedade em torno do Programa Piloto para Proteção das Florestas Tropicais do Brasil (PPG-7), com a constituição da Rede Grupo de Trabalho Amazônico (GTA), que acompanha o programa desde 1991. Hoje esta rede congrega mais de 500 organizações sociais e ambientais que atuam na Amazônia, tendo uma articulação muito sólida com redes nacionais e transnacionais. Alberto Teixeira da Silva é Doutor em Ciências Sociais pela Unicamp e Professor do Departamento de Ciência Política da Universidade Federal do Pará. e-mail: alberts@amazon.com.br
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