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Artigo

Os inimigos da Amazônia estão aqui, e são brasileiros
Por Virgílio Viana em 24/06/2008

Fonte: Eco 21

Uma infeliz série de artigos, incluindo um publicado no jornal The New York Times, realimentou um fantasma que nos persegue há bastante tempo: o risco da internacionalização da Amazônia.  Um dos poucos brasileiros que tinha a coragem de apontar para o equívoco desta "iminente ameaça à nossa soberania" era o saudoso Senador Jefferson Peres que, num dos seus últimos discursos, disse: "Não tenho tanto medo da cobiça internacional sobre a Amazônia.  Tenho medo da cobiça nacional sobre a Amazônia, da ação de madeireiros, de pecuaristas e de outros que podem provocar, repito, o holocausto ecológico naquela região".

Não creio que exista uma conspiração em curso com o objetivo de internacionalizar a Amazônia.  A lógica é simples: os alegados interesses econômicos de outros países não precisam de tropas ou domínio estrangeiro para usufruir das riquezas da região.  Basta ver o setor de mineração, com forte domínio de multinacionais, que lavram nossas riquezas à luz do dia, amparadas pela Lei, em todo o território nacional, incluindo a Amazônia.

Recentemente uma licitação colocou nas mãos de um consórcio internacional a responsabilidade sobre a hidroelétrica do Jirau que terá importância estratégica para a região e o País.  Empresas multinacionais apóiam a produção de soja na Amazônia.  Poderíamos falar sobre a participação estrangeira em setores estratégicos como telecomunicações etc. Tudo isto sem a necessidade de nenhuma "invasão" ou "domínio" de outros países ou aquisição de terras por estrangeiros.

Alguns enganos são realimentados pela imprensa e servem para nutrir o debate sobre a "internacionalização", que deveria ser periférico na discussão sobre o futuro da Amazônia.  A frase atribuída ao ex-Vice-Presidente dos Estados Unidos, Al Gore, não foi dita por ele, mas sim por um congressista norte-americano de pequena expressão.  Os cadernos escolares estadunidenses com o mapa da Amazônia excluída do Brasil nunca existiram de fato e foram montados por um site na Internet.  Existem muitos outros enganos repetidos de forma equivocada.

O cerne da "questão amazônica" é outro e mais incômodo: os inimigos da Amazônia estão aqui mesmo, dentro do nosso País.  Na sua quase absoluta totalidade, são brasileiros aqueles que desmatam, produzem e compram madeira ilegal, plantam soja promovem a grilagem de terras e assassinam líderes dos movimentos sociais.  A ação do poder público brasileiro, salvo raras exceções, tem sido insuficiente para reverter este quadro.  Infelizmente, essa é a dura realidade.  O problema está aqui e não no exterior.

A solução inclui quatro componentes principais.  Primeiro precisamos de um Projeto Nacional para a Amazônia que explicite o óbvio: desmatar é contra o interesse nacional.  Das florestas amazônicas depende a chuva que irriga a agropecuária e abastece as hidroelétricas e as cidades em quase todo o Brasil.  Soma-se a isso o potencial socioeconômico de produtos florestais, obtidos sob regime de manejo sustentável.

O Projeto Nacional para a Amazônia deve seguir o exemplo das políticas de sustentabilidade do Amazonas, baseadas num princípio simples: a floresta deve valer mais em pé do que derrubada.  Segundo, precisamos de políticas públicas eficazes e na escala correta.  Sabemos como promover o desenvolvimento sustentável na região.  Existem muitos exemplos de sucesso que precisam apenas ganhar escala.  Faltam investimentos públicos e gestão eficiente.  Terceiro, precisamos envolver a sociedade civil, universidades e o setor privado numa grande cruzada em prol da sustentabilidade do desenvolvimento da Amazônia.  Devemos combinar os conhecimentos tradicionais e os científicos, a criatividade e o empreendedorismo brasileiros a favor de um projeto nacional de sustentabilidade para a região.  Quarto, devemos ser proativos no cenário internacional.  O caminho é utilizar o interesse internacional a nosso favor, cobrando dos países desenvolvidos mecanismos financeiros que valorizem o papel de nossas florestas para a sustentabilidade do Planeta.

Buscar vilões estrangeiros é mais cômodo e simples, mas, infelizmente, não irá resolver o cerne do problema.  O problema está aqui, na nossa cara.  De nada adianta satanizar organizações não-governamentais que, no geral, realizam ações positivas nos campos sociais e econômicos.  Dificultar a participação de estrangeiros no desenvolvimento científico e tecnológico da região?  Burrice.  Deveríamos, ao contrário, fomentar parcerias e a cooperação inteligente.  Proteger contra a biopirataria?  O caminho é fomentar o desenvolvimento tecnológico e o desenvolvimento de indústrias de biotecnologia na região.  Deixar as florestas amazônicas fora do mercado de carbono?  Não.  Deveríamos defender a instituição de mecanismos de pagamento por serviços ambientais para remunerar as populações que vivem na floresta.  Ao invés de optarmos por uma posição retranqueira e isolacionista, deveríamos ser proativos e propositivos no cenário internacional.

Obviamente, reposicionar o debate sobre a soberania da Amazônia não significa que devamos negligenciar os interesses e movimentos de outros países na região.  Temos que estar alertas.  Existem, em toda parte, interesses escusos que devemos combater especialmente o narcotráfico em áreas de fronteira.  Felizmente, os militares representam o que há de melhor em termos de presença do Estado na região, ao desempenhar com competência sua função de guardiões do nosso território.  Identificar os inimigos certos e nossas metas estratégicas é essencial para vencermos a batalha pela defesa da Amazônia.  Nosso desafio é cuidar bem da sustentabilidade da Amazônia.  Com competência e seriedade.  Esta é a melhor arma para defendermos os interesses estratégicos e a soberania do Brasil na região.

Virgílio Viana, Diretor-Geral da Fundação Amazonas Sustentável


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