Artigo
O que o Brasil não viu em Altamira
Por Verena Glass em 20/06/2008
Fonte: Agência Brasil de Fato
BELO MONTE Mais de 2 mil pessoas se reuniram no Pará para discutir a hidrelétrica no encontro Xingu Vivo para Sempre. Um incidente entre índios Kayapó e um engenheiro da Eletrobrás foi amplamente noticiado pela imprensa; nada além disso A imprensa Quinta-feira, 22 de maio. No Ginásio Poliesportivo de Altamira (PA), uma moça de terninho azul claro, muito alinhada, está sentada em uma cadeira de plástico ao pé da arquibancada; ao seu lado, um rapaz bonito, só de calção, o torso pintado de genipapo. Ela escova seus longos cabelos negros; ele, um índio da etnia gavião, observa com olhos brilhantes. Os dois conversam entre sorrisos. A moça é Cristiane Prado, repórter local da TV Liberal, retransmissora da TV Globo. Chegou antes de todo mundo, ainda no domingo, 18, ao ginásio. No mesmo local, de 19 a 23 de maio, aconteceu o encontro Xingu Vivo para Sempre, que reuniu mais de 2 mil indígenas, ribeirinhos, agricultores, estudantes e ambientalistas para discutir os projetos de aproveitamento hidrelétrico da Bacia do Xingu. Ficou até o último dia. Quando não estava gravando, Cristiane circulava entre os participantes, conversava e tirava foto com os índios. Infelizmente, não se sabe o que Cristiane achou do encontro. Depois de um primeiro relato, transmitido no dia 20, quando apresentou o evento, as demais reportagens que foram ao ar na TV Globo acabaram produzidas pelo colega de Belém, Roberto Paiva. Assim como Paiva, praticamente nenhum jornalista da imprensa nacional, principalmente a escrita, esteve no encontro. O interesse cresceu apenas após o incidente entre os Kayapó e o engenheiro da Eletrobrás Paulo Resende, agredido pelos índios no final de sua fala. Os jornalistas queriam entrevistar a índia Tuíra com seu facão, símbolo da luta contra Belo Monte desde o memorável encontro de 1989 – que, à época, motivou a paralisação do projeto da hidrelétrica –, e se indignavam com o fato de que ela não fala português. Nos dias que se seguiram, pipocavam por todo o país matérias deploráveis. A Folha de São Paulo afirmou que a organização do encontro comprou 100 facões para armar os índios. Editoriais destilavam racismo e ignorâncias; autoridades, que talvez nem soubessem da ocorrência do encontro, proferiam suas opiniões indignadas. O Brasil viveu novamente um carnaval do mau jornalismo. As crianças Enquanto a imprensa contou o que não viu, nós, os que estivemos no encontro de Altamira, vivemos uma experiência marcante. As crianças e os jovens das escolas locais, que diariamente lotaram o evento, pareciam extasiados. De manhã, quando os vários grupos indígenas traziam à quadra suas danças e seus cânticos, uma massa de meninas e meninos se levantava nas arquibancadas com aplausos, assobios e gritos que faziam estremecer o ginásio. Os índios acenavam, como estrelas do futebol em dia de jogo. Nos corredores, onde estavam afixados cartazes e mapas sobre o projeto da hidrelétrica de Belo Monte, dezenas de pequenos altamirenses passavam horas anotando em seus cadernos. Munidos com suas máquinas fotográficas, paravam em paredões na frente das mesas de debate, atrapalhando a visão dos participantes, até que fossem enxotados pelos organizadores. Faziam fila diante de pequenos potes de genipapo para terem seus braços pintados pelas índias, do jeito dos guerreiros Kayapó. Certo fim de tarde, quando todos já tinham ido embora, Dona Fátima, que levava a filinha Julia, de seis anos, pela mão, encostou cansada do meu lado e comentou: “não consigo tirar ela daqui. Ela está fascinada. Nunca vi tanto amor”. Os ribeirinhos Os índios foram o grande destaque do encontro, mas, na quinta-feira (22), quem entrou em cortejo na quadra do ginásio foi um grupo de ribeirinhos. À frente, seis homens carregavam nos ombros uma frágil canoa, e dentro dela, um senhor miudinho com um remo na mão e um menino magro com um copo de plástico levado à boca. Seguiam um grupo de homens e mulheres com ramalhetes de flores amarelas, cantando palavras de ordem com refrão “o Xingu é nosso”. A cena calou a platéia. Depois, estourou um estrondoso aplauso, puxado pelos índios. Homenagem aos caboclos que, sem leis específicas que os protejam, são as principais vítimas do projeto de Belo Monte. Cerca de 16 mil pessoas serão deslocadas, pela previsão inicial dos empreendedores. Sem o título da terra, sem área demarcada e sem direitos, poderão se dissolver nas enchentes do Xingu ou secar às margens dos 100 quilômetros do rio cujo acesso perderão em função do barramento. Os caciques “Perigo, perigo, a soberania nacional está ameaçada”, ecoaram os meios de comunicação empresariais. Ignoram que o Brasil é signatário da Convenção 169 da Organização Internacional do Trabalho (OIT), que reconhece aos povos tribais em países independentes “o direito de assumir o controle de suas próprias instituições e formas de vida, seu desenvolvimento econômico e manter e fortalecer suas identidades, línguas e religiões, dentro do âmbito dos Estados onde moram”. O que os caciques de diversos povos indígenas tentaram deixar claro em Altamira é que se consideram cidadãos brasileiros com todos os direitos que lhes são garantidos pela Constituição Federal. Porém, se consideram também líderes de seus povos e zeladores do legado de seus ancestrais e do futuro de seus descendentes. Na quarta, 21, cerca de 50 caciques e guerreiros apresentaram ao juiz federal Antonio Carlos Campelo um documento com um veemente apelo. “Gostaríamos muito que a Justiça Federal seja sensível ao pedido das comunidades indígenas, pois não aceitamos a construção de barragens no nosso rio. (...) não vamos mais perder nenhuma parte da nossa terra, pois sabemos que estas construções de barragens nunca trouxeram e nunca irão trazer benefício algum para nossas comunidades”, diz o texto. E continua: “Caso os senhores não consigam parar essa obra, (...) entraremos até os canteiros de obras desses empreendimentos e vamos acabar de nosso modo. (...) morreremos defendendo as nossas vidas, nossos patrimônios e nossas terras. Dizemos a vocês ainda que haverá conflito entre o empreendedor e os povos indígenas, caso os senhores não parem com essas obras. Já estamos cansados de ouvir e não sermos ouvidos”. Nem declaração de guerra – como os jornais quiseram fazer parecer – nem desobediência civil. O que Campelo ouviu dos caciques foi um pedido de socorro. E prometeu levar o documento e os apelos ao presidente da República, ao vice-presidente e ao presidente do Tribunal Regional Federal. Futuros O encontro Xingu Vivo para Sempre selou a união dos povos da Bacia do Xingu. O documento final do evento comunicou ao país que índios, ribeirinhos e pequenos agricultores da região vão lutar por seus direitos, seus territórios e suas formas de vida. Sobre o incidente com o engenheiro da Eletrobrás, o procurador Felício Pontes, do Ministério Público Federal no Pará, comentou: “há anos, o MPF vem alertando o governo federal de que a região vive um conflito latente, em função das irregularidades e do não cumprimento da obrigação constitucional do poder público de ouvir os indígenas no projeto da hidrelétrica de Belo Monte”. Em Altamira, a hidrelétrica tem posto, de um lado, comerciantes e fazendeiros e, de outro, movimentos sociais e a Igreja Católica, principal voz de defesa dos povos indígenas na região. Por sua participação no encontro, o bispo da Prelazia do Xingu, dom Erwin Käutler, que já conta com proteção policial em função de ameaças de morte, foi acusado pela imprensa de ter armado e incitado os índios contra o engenheiro. No submundo da florescente pistolagem da região, corre solto que “represálias” estão “liberadas”, segundo relatos que chegaram aos organizadores do evento. O que aguarda a Bacia do Xingu agora? Uma repetição do crime contra Dorothy Stang, vitimando o bispo? Conflitos entre índios e empreiteiros, com possível (ou provável) derramamento de sangue? O que acontecerá daqui para frente será responsabilidade do governo. E também da imprensa, cuja cobertura do evento, na maioria dos casos, oscilou entre obtusa e mau-caráter.
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