Artigo
A Amazônia sob a lupa da ciência mundial
Por Carlos Nobre, pesquisador do INPE e coordenador do LBA em 04/07/2002
Fonte: O Paraense
Carlos Nobre, que acumula quase 30 anos de experiência na pesquisa científica sobre desmatamento e clima, conversou com O Paraense via Internet (em tempo real) sobre as mais importantes pesquisas em andamento na Amazônia e que buscam entender o que a região representa para o Brasil e para o mundo. Pesquisador titular de um dos mais prestigiosos institutos de ciências do país, o Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais, em São José dos Campos (SP), ele atualmente coordena o mais ambicioso experimento científico em andamento no Brasil, cujo objeto de estudos é justamente a Amazônia. Trata-se do LBA, sigla em inglês para Experimento de Larga Escala da Biosfera-atmosfera da Amazônia, que de 7 a 10 de julho apresentará à comunidade científica nacional e internacional, em Manaus, durante a sua segunda Conferência, os principais resultados alcançados pelo projeto, além de outros que fazem relação com os temas estudados pelo LBA. Nesta entrevista a O Paraense, o pesquisador adiantou algumas novidades que a ciência está descobrindo sobre a Amazônia. O PARAENSE - Como o senhor define o projeto LBA? Qual a diferença dele para outros projetos que estão estudando a Amazônia? NOBRE - O LBA procura integrar conhecimentos de várias disciplinas de forma integrada. A maioria dos outros estudos do passado enfocaram uma disciplina ou uma área específica. O projeto LBA é o maior experimento ambiental já realizado sobre uma região tropical do planeta. Envolve mais de 100 estudos em seus 7 temas: física do clima, ciclo de carbono, química da atmosfera, hidrologia, biogeoquímica, usos da terra e dimensões humanas. O PARAENSE - E não é muito difícil gerenciar, coordenar um projeto tão grande que envolve tantos pesquisadores e diferentes países? NOBRE - Sim, a organização do LBA é uma tarefa complexa. No aspecto de campo, os estudos do LBA são apoiados por vários escritórios: Manaus, Belém, Santarém, Ji-Paraná, Rondônia e Brasília (cerrados também fazem parte do LBA). Além disso, há vários comitês: Comissão Superior (que representa os interesses do Governo e é o órgão máximo), Comitê Científico Nacional, Comitê de Implementação e Organização, Comitê de Treinamento e Educação e Comitê de Dados. O PARAENSE - Quais são os custos do projeto e como está dividida a responsabilidade pelo financiamento? O que cabe especificamente ao Brasil? NOBRE - Os custos totais em 6 anos de pesquisa são cerca de US$ 80 milhões. O Brasil é responsável por parte do custeio direto, mas sua grande contribuição traduz-se pela manutenção de todas as áreas experimentais e pelos mais de 250 pesquisadores, técnicos e estudantes brasileiros participantes. Aos EUA cabe o custeio de cerca de 50% do experimento e cerca de 20% aos países europeus. Os demais países amazônicos contribuem mais modestamente, mas ela é significativa pois expande a cobertura dos estudos para além do Brasil. O PARAENSE - Muitas informações estão sendo geradas sobre a Amazônia. De que forma elas serão disponibilizadas depois? NOBRE - O LBA desde seu início tem uma política aberta de dados pois não coleta informações de valor estratégico-econômico ou sensíveis. Temos convicção que política aberta de dados é a que proporciona o maior retorno científico. O PARAENSE - O que a Amazônia pode ganhar, na prática, com o projeto? A partir dos resultados pode haver alguma mudança na forma como ela vem sendo usada? NOBRE - O LBA busca entender a Amazônia de forma integral. Não é necessariamente um projeto em agricultura aplicada, por exemplo. Entretanto, sem um profundo conhecimento do funcionamento físico, químico e biológico dos ecossistemas amazônicos não há como desenvolver a região de forma sustentável. Assim, o projeto busca conhecimentos fundamentais que subsidiem políticas públicas para a sustentabilidade ecológica, social e econômica da Amazônia. O PARAENSE - Voltando à questão da divulgação dos dados. Os resultados das pesquisas são publicados em que línguas? NOBRE - De modo geral, a língua universal de divulgação científica é o inglês, gostemos ou não. Deste modo, a maioria dos trabalhos científicos são divulgados em língua inglesa. Entretanto, já está havendo um esforço de publicar ou traduzir para o português os trabalhos mais importantes e os trabalhos de síntese. Há estratégias de divulgar os conhecimentos em vários formatos, até mesmo como material para o ensino fundamental e ensino médio. Estes são projetos que estão se iniciando. O PARAENSE - E as queimadas? Até onde elas podem influenciar no clima da Amazônia e do resto do mundo? NOBRE - O LBA tem avançado sobre esta questão também. Há várias evidências de que os desmatamentos radicais alteram o clima local, que fica um pouco mais quente e o ar, mais seco. Há estudos que indicam que para desmatamentos de grande escala, pode ser que as chuvas regionais diminuam em até 20%. Quanto a efeitos remotos, em outras regiões do planeta, as incertezas são grandes. Por outro lado, a fumaça das milhares de queimadas pode afetar adversamente a saúde das populações amazônicas. O PARAENSE - O pesquisador Marcel Bursztyn, da UNB, afirma que "a relação do Brasil com a Amazônia revela que há muitas perguntas para as quais se têm poucas respostas seguras e muitas respostas (ações) que são dadas sem conhecer as perguntas". O que o senhor acha dessa afirmação? NOBRE - Concordo. O posicionamento do Marcel vai além das questões de interação do homem com os sistemas naturais, mas é verdadeira. O uso dos recursos naturais da Amazônia, historicamente, não foi precedido de um profundo conhecimento científico sobre a região. Agora, a ciência está "correndo atrás do prejuízo". O PARAENSE - A questão do carbono na Amazônia ainda é uma incógnita. O que já pode ser dito sobre isso a partir das pesquisas do LBA? NOBRE - O LBA está ajudando a diminuir as incertezas sobre o papel da Amazônia no ciclo global de carbono, questão fundamental para as mudanças climáticas, uma vez que o dióxido de carbono é o principal gás produzido pelo homem e causador do aumento do efeito estufa da atmosfera. Antes do LBA, imaginava-se que a Amazônia era uma grande fonte de gás carbônico para a atmosfera devido aos desmatamentos e queimadas. Agora, há várias evidências apontando na direção de que as florestas não perturbadas podem estar absorvendo uma parte do excesso de gás carbônico da atmosfera. É possível que, no balanço, podemos dizer que a Amazônia é um sumidouro importante de carbono, mas teremos que aguardar mais alguns anos para que estes resultados sejam confirmados através de mais estudos e observações. O PARAENSE - O que seriam florestas não perturbadas? Sem a presença do homem? NOBRE - De fato, não há florestas "não perturbadas" no sentido absoluto. Quis dizer, florestas relativamente intactas na sua estrutura, isto é, florestas que não sofrem exploração madeireira ou outro tipo de exploração que modifique sua fisionomia e biomassa. O PARAENSE - Já é possível afirmar quais espécies florestais agem mais como "seqüestradoras" de carbono? A pesquisa do LBA está chegando a esse detalhamento? NOBRE - Ainda não. As medidas que indicam este comportamento da floresta medem o "sequestro" de carbono para uma área de floresta de alguns quilômetros quadrados. Esta área contém centenas de espécies e os estudos ainda não discriminaram se há espécies mais ativas neste comportamento. Entretanto, atualmente há alguns estudos que tentarão verificar para onde este carbono está indo: galhos, troncos ou para o solo da floresta. O PARAENSE - Como se dá esse seqüestro de carbono pela floresta? Detalhe melhor para os leitores. NOBRE - Dentro da célula das folhas acontece a reação de fotossíntese. Nesta reação, o gás carbônico da atmosfera, na presença de luz e água, produz compostos orgânicos e libera oxigênio. No processo de respiração da floresta, ao contrário, os compostos orgânicos reagem com o oxigênio e liberam gás carbônico, água e energia, de que a planta precisa para viver. O "seqüestro" significa que uma quantidade maior de carbono está sendo absorvido pela fotossíntese do que sendo perdido pela respiração das plantas. Isto significa que a floresta deveria estar "crescendo" e os estudos atuais buscam saber para onde está indo este carbono. O PARAENSE - Crescendo em área territorial ou as árvores deveriam estar maiores, mais largas? É como se a floresta estivesse se alimentando mais e por isso deveria estar ficando maior? NOBRE - Sim, as árvores deveriam estar maiores ou o carbono poderia estar indo para o solo e sendo armazenado como matéria orgânica do solo. Há alguma evidência de que as árvores podem estar realmente ficando mais largas, mas estas observações foram feitas em poucos locais para poder se generalizar. O PARAENSE - Retornando às chuvas. Quais os resultados já gerados pelo LBA sobre a importância delas para a região e qual a interferência que as mudanças na floresta têm causado na formação das chuvas amazônicas ? NOBRE - O LBA revelou alguns dados interessantes sobre chuvas. Por exemplo, boa parte das nuvens no período mais chuvoso se parecem mais com nuvens oceânicas do que com nuvens continentais. Elas têm menos raios (descargas elétricas). Uma das pesquisas para o segundo semestre é saber mais de como a fumaça das queimadas pode afetar o início da estação chuvosa no sul da Amazônia. O PARAENSE - Em que nível a floresta influencia na formação das chuvas? Onde tem floresta chove mais? NOBRE - Os resultados do LBA indicam isto, onde há largas extensões de florestas, chove um pouco mais. Por exemplo, às margens dos grandes rios e sobre ilhas nestes rios, chove menos do que na terra firme. Apesar de sabermos que isto acontece, ainda não sabemos exatamente porque isto acontece e o LBA está investigando as prováveis causas. O PARAENSE - E o homem neste contexto ? Como fica a presença do ser humano na Amazônia ?Como o estudo trata do homem, a questão sócio-ambiental? NOBRE - O LBA reconhece que estudos sócio-ambientais são fundamentais para se entender a interação entre o homem e os sistemas naturais. Aliás, este entendimento forma a base da emergente ciência da sustentabilidade. Há que se incrementar substancialmente estes estudos no LBA. Atualmente há poucos estudos nesta área. O PARAENSE - E os aerossóis? O que são, de forma bem simplificada, os aerossóis e qual o papel deles na Amazônia? NOBRE - Aerossóis são partículas microscópicas em suspensão na atmosfera. São resultado de processos naturais ou podem também ser resultado de ações antrópicas, como, por exemplo, os aerossóis de queimadas. Alguns destes aerossóis são higroscópicos, isto é, "gostam de água" e se constituem nos núcleos de condensação das gotículas das nuvens (nas nuvens, cada gotícula se forma ao redor de um núcleo de condensação). Uma das hipóteses que serão testadas no LBA é se um aumento muito grande da quantidade de aerossóis na atmosfera produzidos pelas queimadas poderia significar, na verdade, menos chuvas, pois haveria um número muito grande de microscópicas gotículas de água, mas que não cresceriam e nem formariam gotas maiores para caírem como chuvas. O PARAENSE - Como essas descobertas podem influir na elaboração de políticas para a região, nesse sentido de evitar que as ações sejam feitas antes de se ter o conhecimento? NOBRE - Idealmente, uma vez tendo um conhecimento rigoroso sobre possíveis modificações ambientais, pode-se pensar em estratégias para, ou mitigar os efeitos adversos, ou prevenir as modificações. Se, de fato, as queimadas puderem influenciar as chuvas, então, políticas públicas deveriam tratar de reduzi-las. Também devido a políticas públicas de saúde, dever-se-ia reduzir drasticamente o número de queimadas. O PARAENSE - Muitos segmentos têm defendido que o manejo florestal que culmina com a certificação - pelo FSC, por exemplo - é um dos caminhos mais recomendáveis para a utilização da floresta. Como o senhor vê essa forma de uso dos recursos madeireiros amazônicos? NOBRE - De modo geral, é altamente recomendável que o manejo florestal, principalmente a extração seletiva de espécies de madeira, seja sustentável. Entretanto, há muita pesquisa a ser feita para se definir exatamente o que é extração madeireira sustentável. O ecossistema tropical é infinitamente mais complexo do que os paradigmas silviculturais de países de latitudes médias e altas, que são o que nós temos nessa certificação. Há que se desenvolver uma nova concepção de sustentabilidade integral, que vai além da simples manutenção da capacidade de voltar a uma área explorada depois de tantos anos. Há que se estudar como a densidade de uma determinada espécie de valor comercial é mantida devido a complexas interações com muitas outras espécies, com o solo e com o clima. O PARAENSE - O senhor acredita que a biodiversidade, as riquezas amazônicas podem ser usadas sem grandes prejuízos para a Amazônia? É possível desenvolver, crescer e conservar a floresta ? NOBRE - Em princípio, sim, mas não com nosso conhecimento atual e principalmente não com o nível educacional básico e tecnológico da maioria da população rural da Amazônia. Tem havido uma simples apropriação do capital natural de forma completamente insustentável. Mudar este paradigma é não só possível, mas necessário. Entretanto, tem que haver um esforço gigantesco de criar políticas públicas de inclusão dos extratos menos favorecidos, especialmente, o resgate educacional. O PARAENSE - Mas no caso de algumas populações tradicionais existe um conhecimento que usa os recursos preservando às vezes até de maneira bem engenhosa a floresta. O senhor não acha que pode ser uma via de mão dupla, de troca de conhecimentos entre os cientistas e a população amazônica? NOBRE - Sem dúvida. Reconhecendo se tratar de uma realidade social muito distinta da de hoje, antes da chegada do conquistador europeu há 500 anos, talvez a população na Amazônia não fosse muito inferior em número à população rural de hoje. Entretanto, mesmo levando em conta que viviam da floresta e de seus recursos naturais, portanto, a estavam modificando continuamente, a integridade natural da região era preservada. As populações detinham conhecimentos de viver com a floresta. Hoje, se valoriza muito o conhecimento tradicional das populações, em que pese que é comum, algumas vezes, considerar este conhecimento como "recurso natural", que se extrai da natureza para nosso proveito. Este conceito está mudando e reconhece-se que há " propriedade intelectual", que deve ser respeitada e retribuída. O PARAENSE - Como está a participação dos cientistas brasileiros no projeto? O LBA investe na formação da inteligência nacional? NOBRE - Sem dúvida! Um dado concreto. O Journal of Geophysical Research, um dos mais importantes do mundo, está publicando nos próximos meses um número especial sobre o LBA. Cerca de 40% dos artigos têm brasileiros como primeiros autores. Isto é significativo! Claro que ainda a maioria dos cerca de 100 estudos são liderados por parceiros de fora do país. Porém, o número de cientistas brasileiros não pára de aumentar no LBA. A interação de pesquisadores está provocando uma mudança na maneira de como a própria comunidade de pesquisadores amazônicos vêem-se a si próprios, resultando numa sensível autovalorização. Uma falha no passado era fazer os pesquisadores da região se sentirem como "cientistas de segunda classe". Nesta segunda metade do LBA, instituições amazônicas irão assumir total e completa liderança deste complexo experimento. O PARAENSE - Mas o número de pesquisadores atuando na Amazônia ainda é muito pequeno... NOBRE - Numericamente, em todas as áreas do conhecimento, o LBA não vai mudar esta realidade de modo significativo. Porém, nas suas áreas temáticas, deve fazer uma grande diferença, pois estará, no mínimo, dobrando ou triplicando o contingente de pesquisadores. Depois do LBA todos os novos grandes estudos científicos na região terão que se preocupar também com treinamento avançado de pesquisadores da Amazônia. O LBA está cristalizando esta idéia, que espero que se enraíze. Por último, por ser um estudo de alta visibilidade nacional e internacional, deverá abrir canais de futuro financiamento de mais pesquisas na Amazônia no país. Deve-se lembrar que é o primeiro grande experimento científico na região liderado pelo Brasil. O PARAENSE - Quais os principais mitos sobre a Amazônia que já foram derrubados? NOBRE - Alguns mitos, como o do "pulmão" do mundo já vinham perdendo força mesmo antes do início do LBA. Por ser uma região de enorme extensão e imensos recursos hídricos, se pensava que na Amazônia não haveria problemas de poluição de ar e de água. Pesquisas do LBA, porém, têm demonstrado que a qualidade da água pode vir a se tornar um problema devido à poluição, principalmente devido à agricultura, e que poluição do ar é efetivamente um problema de grande dimensão devido às queimadas e, mesmo na ausência destas, pode ser um problema localmente nas imediações das grandes cidades. Um outro mito dizia respeito a uma suposta 'resistência' natural da floresta e de sua diversidade biológica, isto é, o sistema perturbado por desmatamentos, queimadas, voltaria ao seu estado anterior, uma vez que cessasse a perturbação. Os estudos do LBA começam a mostrar que áreas abandonadas muitas décadas atrás, apresentam florestas secundárias muito pobres em diversidade de espécies e na recomposição da biomassa. O PARAENSE - Já podemos afirmar, sem medo de errar, que a Amazônia exerce influência de fato no clima global? Em que medida? NOBRE - Com relação ao ciclo global de carbono, isto é verdadeiro. Muito provavelmente, também é verdadeiro com respeito a outros gases do efeito estufa, como metano e óxido nitroso, e para várias espécies químicas bastante reativas e que controlam o potencial oxidante. Aerossóis definitivamente têm um impacto regional e estuda-se se poderiam estar afetando a atmosfera globalmente. Já para o ciclo hidrológico, a resposta é mais complicada. Por um lado, sabemos que o ciclo hidrológico natural da Amazônia é importante para a circulação geral da atmosfera. Porém, ainda não foi demonstrado que o desmatamento pode alterar a circulação atmosférica em regiões distantes. O PARAENSE - O LBA vai ser concluído dentro de mais dois anos (2004). Esse tempo relativamente curto é suficiente para concluir os projetos em andamento? NOBRE - Em ciência, um novo achado motiva um novo estudo, que leva a um novo achado, e assim por diante. Esta fase do LBA com expressiva participação de pesquisadores de outros países não amazônicos se encerrará no final de 2004. Após esta fase, muitas das pesquisas atuais continuarão e serão mesmo expandidas. A grande diferença é que, a partir de então, serão lideradas precipuamente por instituições amazônicas, e com grande participação de pesquisadores da região, incluindo aqueles formados no LBA. O grande desafio é fixar este não desprezível número de cientistas na região.
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