"O PAC vai fomentar mais conflitos e expropriações na região", diz jornalista da Amazônia - 21/12/2009
Local: São Paulo - SP
Fonte: Amazonia.org.br
Link: http://www.amazonia.org.br
Fabíola Munhoz Rogério Almeida, 42, é jornalista de Belém (PA) e lançou recentemente o livro "Pororoca pequena: marolinhas sobre a(s) Amazônia(s) de cá", em que reúne seus textos produzidos entre 2003 e 2009. A obra traz artigos sobre o papel do Estado na Amazônia, as tensões entre os diferentes agentes que disputam a terra e as riquezas da região, bem como projetos de desenvolvimento ali implantados, que causaram diversos danos socioambientais. Articulista do Instituto Brasileiro de Análises Sociais e Econômicas (Ibase) e do Ecodebate, além de colaborador da rede Fórum Carajás, Almeida não se considera um jornalista militante e diz que inexiste neutralidade na sua profissão. "Quem produz editoriais como 'pecadores e criminosos', desqualificando a atuação de religiosos e movimentos sociais que questionam os projetos da Vale [mineradora que atua no Pará], não é menos engajado. Tenho uma opção clara: os marginalizados". Foi ainda na época da faculdade que ele começou a acompanhar movimentos sociais e iniciativas do meio rural. "Com a rede Fórum Carajás, que aglutina organizações de Pará, Maranhão e Tocantins, tive a minha pós-graduação sem parede", afirma. De 1999 a 2003, Almeida viveu em Marabá (PA), região marcada por grandes projetos e luta por terra. "É o lugar onde mais se matou camponês no país, com a maioria dos crimes impunes". O jornalista concedeu entrevista exclusiva ao site Amazonia.org.br, em que fala sobre seu livro e critica o projeto desenvolvimentista imposto à região amazônica, destacando os impactos negativos causados por mineração e hidrelétricas, que fazem parte do Programa de Aceleração do Crescimento (PAC), do governo federal. Confira. Amazonia.org.br- Você se considera uma minoria dentre os profissionais de imprensa que atuam na Amazônia? Como você avalia a imprensa local? Almeida- Creio que sim. Somos animais quase em extinção. A imprensa local, como o desenho da imprensa nos grades centros, é controlada por famílias e associada aos interesses das classes que controlam terras e outros empreendimentos. Não há nuances diferentes. Todos advogam os interesses dos grandes projetos e criminalizam as ações políticas dos movimentos sociais. É complicado até ler jornal. O caso das ocupações nas propriedades em nome da empresa do Daniel Dantas é o exemplo mais recente. Os jornalistas foram levados às áreas de conflitos por aviões fretados pela Agropecuária Santa Bárbara, o braço rural de Dantas. As terras são da União ou do Estado. E nada disso é informado na imprensa local. Nem mesmo dos crimes em que ele [Dantas] já foi condenado e dos processos que ele responde. Amazonia.org.br- O material do seu livro reúne escritos sobre conflitos fundiários e impactos socioambientais de grandes projetos. Durante o tempo em que apurou tais temas, qual foi o caso que mais lhe chamou a atenção e por quê? Almeida- A Amazônia tem uma situação delicada que é a questão fundiária. O episódio do Daniel Dantas no sudeste do Pará me deixa um pouco perplexo pelo conjunto da obra. É um novo capítulo numa região marcada por grandes conflitos por terra e recursos lá existentes. É um agente novo onde já disputam grandes corporações, indígenas, garimpeiros, camponeses e sem terra. E ainda não se compreendeu qual a intenção do Dantas na região. Seria a de prospecção de minério ou simplesmente a lavagem de dinheiro, crime do qual ele é acusado? Amazonia.org.br- Você já escreveu sobre mineração, hidrelétricas, estradas e grilagem. Em sua opinião, qual o problema da realidade amazônica mais sério e difícil de ser enfrentado? Almeida- Os projetos de desenvolvimento ainda obedecem à mesma orientação: o saque aos recursos naturais. Creio que PAC vai fomentar mais conflitos e expropriações na região. E o pior é que o Estado financia, a partir do Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES). É o complexo xadrez da região. Creio que temos sempre de buscar uma leitura geral sob pena de análises equivocadas. Amazonia.org.br- Baseado no contato pessoal que teve com as comunidades locais da Amazônia, quais foram as maiores necessidades e dificuldades enfrentadas por esses povos? Almeida- Vamos para o quintal que conheço um pouquinho melhor, o sudeste do Pará. Lá os projetos de assentamento da reforma agrária representam cerca de 52% do território. É uma população bem significativa. O que fazer para construir uma política de desenvolvimento a partir dessa realidade? É algo complicado. As agendas dos centros de pesquisa, os financiamentos e as obras de infraestrutura não contemplam essa população. O financiamento para a pesquisa na Amazônia é de 1% do orçamento nacional. Como a gente pode sair da nossa condição colonial e de periferia dessa forma? Creio que seja necessário o debate sobre os projetos de desenvolvimento. Ainda hoje, a lógica tem sido a partir dos grandes empreendimentos, a economia de enclave que socializa somente os desastres. O sudeste [do Pará] é top de linha em trabalho escravo, execuções de camponeses e desmatamento, com vários municípios no ranking da violência. São provas de que algo está errado. Amazonia.org.br- Qual projeto, sobre o qual você escreveu, em sua opinião, causou maiores danos socioambientais à Amazônia? Almeida- A mineração. Temos ainda as hidrelétricas. Mas, pondero que a gente deva buscar compreender a complexidade a partir do conjunto da obra: grandes empreendimentos e as obras de infraestrutura. A cadeia produtiva da mineração provoca uma rede de impactos nas dimensões ambiental e social. As carvoarias que alimentam os pólos de gusa de Açailândia, no oeste do Maranhão, e o pólo de gusa de Marabá animam o trabalho escravo e a devastação da floresta e do cerrado. Isso, além da morte dos recursos hídricos. Em Marabá, a situação dos rios e igarapés é grave. A cadeia não dinamiza a economia da região. Nas universidades, há uma base de dados bem significativa sobre o assunto. Mas, como falei antes, é necessário que a gente busque conhecer o conjunto a obra. É uma cadeia, que tem relação com os inúmeros cenários locais e a macroeconomia. Ainda somos um almoxarifado, uma periferia. Amazonia.org.br- Que políticas públicas você defende que sejam aplicadas à Amazônia? Almeida- É necessário que os marginalizados, que sempre foram quem socializou os prejuízos e os desastres dos projetos implantados até hoje, sejam ouvidos e considerados. A nossa história anda lentamente. As diferenças ainda são resolvidas na bala em pleno século XXI. Creio que não podemos apenas considerar o grande empreendimento. Há sugestões para pesca, fruticultura e pequena produção. Mas, há situações delicadas. Como a pessoa pode produzir polpa de fruta onde nem mesmo há energia elétrica? E somos o terceiro estado em produção de energia. As hidrelétricas são pensadas e erguidas para as empresas de eletrointensivo, como as fábricas de alumínio. Amazonia.org.br- Você escreveu artigos contra a hidrelétrica de Estreito e a BR-163. Você é contra estradas e hidrelétricas na Amazônia? Almeida- O problema é que os projetos experimentados até hoje são concentradores de terra e renda nas mãos de poucos. E sempre expropriam as populações locais. Há um passivo imenso que deve ser reparado. E a agenda desenvolvimentista sinaliza para o aprofundamento das diferenças. É necessário contemplar as populações que sempre arcaram com os prejuízos e os desastres. Agora mesmo, no caso de Estreito, o Ministério Público Federal vem tentando fazer isso. As grandes corporações não consideram as populações locais. No máximo, fazem perfumaria, que batizam de responsabilidade social. Amazonia.org.br- Sobre quais dos novos empreendimentos e problemas sociais da Amazônia você pretende elaborar futuras reportagens? Almeida- Creio que Marabá merece atenção especial por conta da siderúrgica da Vale. Avalio que a cidade vai explodir com a migração. Amazonia.org.br- Você acredita na efetivação de um modelo de desenvolvimento sustentável na Amazônia? Almeida- O próprio conceito é um problema. Como combinar desenvolvimento, que prima pelo uso intensivo dos recursos naturais, com a sustentabilidade, que possui pressupostos em oposição ao desenvolvimentismo? Avalio que as populações locais devam ser os protagonistas dos modelos de desenvolvimento. Temos várias Amazônias. O projeto não pode ser homogêneo para toda a região. Até hoje, temos vivenciado projetos criados nos centros mais desenvolvidos. A nossa condição ainda é colonial nas mais variadas dimensões. Baixe o livro de Rogério Almeida: "Pororoca pequena: marolinhas sobre a(s) Amazônia(s) de cá"
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