Ribeirinhos discutem Desenvolvimento Sustentável no Amazonas - 08/08/2002
Local: Manaus - AM
Fonte: Amazonas Em Tempo
Link: http://www.emtempo.com.br/
A realidade do ribeirinho e suas contribuições no contexto sócio-econômico e cultural do Estado foram exaustivamente discutidas no XVIII Encontro de Ribeirinhos do Amazonas, que terminou ontem no auditório da Maromba. Os ribeirinhos mostraram as atividades sustentáveis que desenvolvem em seus municípios as quais, quem sabe, podem até servir de experiências a serem apresentadas na Conferência Rio+10, que será realizada nos próximos dias na cidade de Johannesburgo, África do Sul. "O evento está direcionado à organização política dos ribeirinhos, além de reforçar neles o senso de protagonismo, ou seja, conduzir sua própria história e do meio em que vivem", disse o coordenador regional da Comissão Pastoral da Terra (CPT), Raimundo Moraes, 36. Participaram cerca de 40 pessoas de 16 municípios divididos em prelazias e dioceses do interior. Nestes três dias, ribeirinhos e lideranças indígenas absorveram as informações passadas pelos palestrantes sobre o assunto "Desenvolvimento Sustentável". A proposta, segundo Moraes, foi mostrar aos ribeirinhos as potencialidades de seus municípios e esclarecer a forma de exploração sustentável desses recursos naturais. Escravidão Além de explanações, discussões e propostas, foi denunciado o trabalho escravo no município de Barcelos, a 405 quilômetros de Manaus, em linha reta. Segundo a coordenadora do Departamento de Agricultura Indígena de Barcelos, a índia tukano Alzira Garcia, a exploração já vem de longa data e, de uns tempos para cá, é que as denúncias começaram a tomar força. Como se ainda estivessem nos seringais do período da borracha na região, proprietários de piaçabais mantém inúmeras famílias trabalhando nos igarapés em troca de alimentos e roupas que são descontadas do pagamento. Como moram nestes locais, pai e filhos vão contraindo dívidas com os proprietários, que nem uma vida inteira seria o bastante para saná-las. "Quanto mais se trabalha, mas a conta aumenta. Muitas vezes morre o pai e os filhos ficam lá trabalhando para pagar as dívidas", denunciou Alzira. É repetição dos tempos em que nordestinos vinham de tão longe tentar a vida nos seringais e nunca mais voltavam aos seus lares. Morriam endividados naqueles locais. "Tem famílias que nunca conseguiram sair de lá", disse a coordenadora. O caso é sério. Alzira enumerou mais de 30 famílias entre ribeirinhos e indígenas que dependem do piaçabais para "sobreviver". Esses piaçabais se localizam em sua maioria no interior de Barcelos. Após inúmeras denúncias junto à Fundação Nacional do Índio (Funai) sobre o trabalho escravo naquele município, a Polícia Federal resolveu averiguar o caso. Constatado, a PF vai partir agora para a resolução do problema. "Não queremos fechar a indústria. O que queremos é que os proprietários paguem os direitos trabalhistas necessários a seus empregados e cobrem preços justos na alimentação e vestuário", disse Alzira. Segundo ela, as informações que o Departamento que coordena recebeu é que nestes piaçabais são cobrados preços absurdos sobre a alimentação: o quilo do sal, por exemplo está saindo ao preço de R$ 5; café, R$ 7; o quilo do arroz e café, R$ 8 cada; a saca da farinha R$ 80. "Eles são obrigados a comprar, senão morrem de fome. Os proprietários vêm a Manaus e compram os piores tipos de roupas. Lá, revendem a um preço absurdo: R$ 50, R$ 100", disse indignada. Para amenizar a situação sócio-econômica que vivem essas famílias e outras mais, Alzira adiantou que o Departamento de Agricultura Indígena tem planos de instalar, em 2003, uma fábrica de vassouras a fim de empregar as mulheres indígenas e as ribeirinhas. Valéria Costa
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