Campanha contra escalpelamento para conscientizar donos de barcos - 08/08/2002
Local: Belém - PA
Fonte: O Liberal
Link: http://www.oliberal.com.br/index.htm
Um projeto-piloto a ser realizado em Barcarena, dentro das próximas semanas, dará início a uma intensa campanha junto aos proprietários das chamadas embarcações familiares, para que eles definitivamente se conscientizem da importância de proteger o eixo dos motores e, com isso, evitar que crianças sejam escalpeladas. Apesar de aparentemente simples, o trabalho não é fácil, porque irá mudar uma cultura que há décadas predomina entre os ribeirinhos, que, por falta de informação, insistem em manter os eixos desprotegidos, sem se dar conta do perigo que isso representa, principalmente para as meninas com idade entre 5 e 10 anos, que são as maiores vítimas do escalpelamento, conforme dados da Fundação Santa Casa de Misericórdia do Pará. Diante da seriedade do problema, a campanha educativa ganhou mais um aliado. A Câmara de Responsabilidade Social da Associação Comercial do Pará, presidida por Rosângela Maiorana Kzan, decidiu se engajar no projeto. "A proposta da Câmara é para que seja possível articular, viabilizar ações, soluções, que estão aí, mas estão adormecidas", disse Rosângela. Na tarde de ontem, a Câmara promoveu uma primeira reunião com a Associação Sarapó, responsável pela campanha, e ainda com representantes da Capitania dos Portos, Pronto Socorro Municipal, secretarias municipal (Sesma) e estadual de Saúde (Sespa), secretarias de Estado de Educação (Seduc) e de Trabalho e Promoção Social (Seteps), Ação Social Integrada do Palácio do Governo (Asipag), Rádio Margarida, Fundacentro, Albrás, Santa Casa e Prefeitura de Santarém. Apesar de convidados, deixaram de comparecer representantes das prefeituras de Altamira, Barcarena, Breves e Cametá, que, juntamente com Santarém, são os municípios que registram o maior número de casos de escalpelamento de crianças. O projeto-piloto será realizado em Barcarena, porque ali a Albrás já vem produzindo carenagens metálicas - nome dado ao protetor do eixo do motor -, muito mais resistente e com durabilidade maior que aquelas produzidas com madeira. Na reunião, o assessor de Relações Externas da Albrás, Paulo Ivan Campos, anunciou que, inicialmente, a Albrás irá doar 100 kits para a campanha. Quantidade que poderá ser maior dependendo da necessidade. Ivan Campos, contudo, frisou que, no momento, o mais importante é que os donos de embarcação se conscientizem. "Do contrário, nós vamos doar o protetor e eles irão retirar". "Com certeza, a partir da educação é que vamos coibir isso", ressaltou o médico Cláudio Britto, presidente da Associação Sarapó e que há um ano, numa parceria com as secretarias de Estado, vem diversificando ações em favor das vítimas de escalpelamento. Graças a isso, as crianças escalpeladas, que antes eram conduzidas ao Pronto Socorro Municipal de Belém, onde permaneciam por dois ou três meses, passaram a receber atendimento multidiciplinar na Santa Casa. Cláudio Britto tem outros projetos, como o de pesquisa de campo, mas está na dependência de financiamento. Na reunião de ontem, além da campanha educativa, Rosângela Maiorana discutiu com os participantes que outras ações poderão ser desenvolvidas de imediato. E chegou-se à conclusão que há necessidade de redimensionamento dos albergues, onde as crianças permanecem, juntamente com as mães, até o final do tratamento. O diretor-presidente da Santa Casa, Hélio Franco, disse que a construção do albergue do Hospital Ophir Loyola, na travessa 1º de Março, para os pacientes com câncer, irá ampliar a oferta de leitos, na fundação. Atualmente, o albergue da Santa Casa conta com 86 leitos, dos quais 80% são para os pacientes com câncer. Tragédias podem ser evitadas com custo máximo de R$ 25 O escalpelamento em embarcações pode ser evitado com apenas R$ 25, que é quanto custa, em média, a carenagem metálica, ou seja, o protetor do eixo dos motores dos barcos. Um valor irrisório perto do custo de tratamento das vítimas do escalpelamento, que ocorre quando a pessoa, ao se abaixar, tem o cabelo enroscado no eixo descoberto. Dos casos registrados nos hospitais, 97% são em crianças, a grande maioria do sexo feminino. O diretor-presidente da Fundação Santa Casa de Misericórdia, Hélio Franco, explicou que um único curativo feito pelo cirurgião plástico sai por R$ 200. Contando com o material, sobe para R$ 500, pois como há o arrancamento total ou parcial do couro cabeludo da vítima, inclusive de orelhas e pálpebras, é preciso fazer o enxerto do local atingido. Isso ainda é pouco, perto do longo período de tratamento a que as crianças precisam se submeter. São dois ou três meses de permanência no hospital, em que as vítimas passam por várias cirurgias e intensos curativos. Como o custo do tratamento é altíssimo, o Serviço Único de Saúde (SUS) não consegue cobrí-lo totalmente, obrigando o governo do Estado a fazer a complementação, observou Hélio Franco. Pior mesmo são as seqüelas físicas e psicológicas nas crianças, por maior que seja o carinho recebido da família e dos pais. Geralmente, não há como recuperar os cabelos, que são arrancados juntamente com o couro cabeludo. De tão envergonhadas, muitas crianças se recusam a freqüentar a escola. Estudos apontam para a ocorrência de quatro escalpelamentos por mês, no Pará. Segundo o presidente da Associação Sarapó, o médico Cláudio Britto, atualmente existem cerca de 150 casos no Estado. A partir da reunião de ontem na Câmara de Responsabilidade Social da Associação Comercial do Pará ficou decidido que, como parte da campanha educativa, a Capitania dos Portos e a associação passarão a desenvolver ações conjuntas diretamente com os donos das chamadas embarcações familiares. Abordagens - A Capitania estima que, no Pará, existam perto de 30 mil dessas embarcações. "Em quase todas as embarcações que fiscalizamos e detectamos que não têm o eixo coberto, nós retemos essas embarcações e obrigamos o condutor a proteger as partes descobertas", afirmou o capitão-de-fragata Ednardo, acrescentando que a própria Capitania dá todo o material necessário (madeira, prego e serrote) ao dono da embarcação, para fabricação da carenagem, além de disponibilizar um carpinteiro para orientar o trabalho. Ao longo de 2001, a Capitania fez 14.084 abordagens nos rios da região e detectou 518 embarcações com os eixos desprotegidos. Outros 1.061 barcos estavam com a engrenagem coberta. Neste ano, a fiscalização aumentou. De janeiro a junho, foram feitas 12.461 abordagens de janeiro a junho deste, quando a Capitania detectou 970 embarcações com o eixo desprotegido, enquanto 4.633 já não apresentaram problemas. Nas palestras que já vem realizando em comunidades ribeirinhas, a Capitania tem alertado os moradores para os riscos de o eixo ficar descoberto. "Temos feito palestras em escolas e comunidades visando à prevenção. Falamos do cuidado que as pessoas devem ter quando navegam em embarcações pequenas", disse o capitão Ednardo. Esse trabalho começou a ser feito depois que a Associação Sarapó começou a chamar atenção para os casos de escalpelamento. O presidente da entidade só não concorda que a carenagem seja de madeira, porque o material logo se desgasta. Cláudio Britto informou que a entidade instalou dez protetores metálicos em embarcações, para avaliar a receptividade do material, e percebeu que há aceitação. A presidente da Câmara de Responsabilidade Social, Rosângela Maiorana Kzan, acredita que, em médio prazo, as ações para fazer com que os donos de embarcações se conscientizem começarão a apresentar bons resultados. "Eu espero que em mais algum tempo não tenhamos mais nenhuma criança escalpelada".
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