Pistoleiros vestem coletes da Polícia em Castelo dos Sonhos, no Pará - 29/07/2002
Local: Belém - PA
Fonte: O Liberal
Link: http://www.oliberal.com.br/index.htm
A falta de proteção da Polícia aos que denunciam o crime organizado em alguns municípios do sul e sudoeste do Pará encorajou mandantes de assassinatos e seus pistoleiros a acabarem com a vida de sindicalistas como Ademir Federicci, de Altamira, no final do ano passado, e, na semana que passou, com Bartolomeu Morais da Silva, o "Brasília", em Castelo dos Sonhos. Como Federicci, "Brasília" relatou em carta às autoridades as ameaças que vinha sofrendo. Nenhuma providência foi tomada porque, como resumiu na última sexta-feira o chefe da Polícia Civil, Lauriston Góes, "a mera cogitação de ameaça não enseja legalmente um procedimento imediato, pois é necessário que o ameaçado represente à autoridade para que o inquérito devido seja feito". Documentos obtidos por O LIBERAL revelam que as polícias Civil e Militar tinham conhecimento das ameaças de morte que "Brasília" vinha sofrendo. Pior: no caso da Polícia Civil, um delegado de Novo Progresso, de prenome William, não só sabia do que vinha ocorrendo em Castelo dos Sonhos, como ainda colocava seus policiais e ele próprio à disposição dos fazendeiros da região, para expulsar supostos invasores de terra. Humilhado - Numa carta intitulada "Revolta dos Colonos", "Brasília" conta com riqueza de detalhes como a Polícia demonstra sua afinidade com os fazendeiros e pistoleiros para ameaçar e expulsar humildes famílias que denunciam grilagem de terras e lutam por um lote para nele viver e plantar para garantir a sobrevivência. "O menino com as iniciais L. L, de 14 anos, foi vítima de humilhação e abuso de poder por parte dos pistoleiros armados nas imediações da Gleba Gorotire, no Vale do Jamanxim, em Novo Progresso. Um dos pistoleiros pressionou psicologicamente o garoto até o ponto de ele entrar em desespero, começando a chorar. O pistoleiro se aborreceu e acabou tentando agredir o menino. A agressão não aconteceu, porque um outro pistoleiro intercedeu a favor do garoto. No entanto, um clima de rivalidade entre os pistoleiros e os colonos da área acabou surgindo", relata "Brasília" na carta ao final por ele assinada, com a data de 8 de junho passado. Posseiros armam tocaia para surpreender os matadores Revoltados com a situação, os posseiros resolveram armar uma tocaia para surpreender a tropa de pistoleiros. Seis dos oito pistoleiros foram presos e desarmados pelos colonos. Com eles foram apreendidas cinco espingardas e dois rifles, balas, além de um rádio amador. Um dos pistoleiros, João Alves dos Santos, que segundo "Brasília" trabalha para o fazendeiro paulista Milton Braga - suspeito de ter encomendado a morte do sindicalista -, afirmou que as armas e o material apreendido pelos colonos eram de propriedade do gerente da Fazenda Big Vale, também conhecida na região por Fazenda Tala. "Em certa ocasião, um dos posseiros, chamado Hamilton, se deparou com oito homens na área. Dois deles se apresentaram como se fossem policiais, mas Hamilton não acreditou pelo fato de eles estarem acompanhados de uma mulher e do famoso grileiro Milton Braga, que num ato de repúdio mostrou o arsenal de armas que traziam, afirmando terem armas pesadas". A intenção, diz "Brasília" na carta, era intimidar Hamilton. Entre as armas apresentadas havia duas metralhadoras, uma espingarda calibre 12, um pistola 9 milímetros. Os indivíduos que presenciaram a cena e que se diziam policiais não tomaram qualquer atitude. Fatos confirmam que Milton Braga - ainda de acordo com o sindicalista assassinado em Castelo dos Sonhos -, meses atrás, junto com o delegado William, de Novo Progresso, e a participação de fazendeiros, recrutava pistoleiros naquele município e em Guarantã do Norte (MT) e Castelo dos Sonhos. "Depois de recrutados, os pistoleiros vestiam coletes da Polícia Civil e retiravam os posseiros". PF vai investigar morte de Dema, sindicalista de Altamira O Ministério Público Federal, por intermédio da procuradora da República em Belém, Solange Maria Braga, determinou à Polícia Federal que instaure inquérito para apurar a morte do sindicalista de Altamira, Ademir Federicci, o "Dema", assassinado na frente de sua esposa e de seus filhos, em sua residência, naquele município, no dia 25 de agosto do ano passado. A decisão da procuradora ocorreu após algumas reuniões mantidas com representantes da família do Dema e membros do Ministério Público Federal. Eles relataram a forma covarde como o crime foi praticado, bem como os indícios de que a morte aconteceu em decorrência do trabalho que "Dema" vinha desenvolvendo na região, relacionado com denúncias de fraudes com financiamentos da extinta Sudam, denúncias de retirada ilegal de madeira em terras indígenas, sua luta em prol da resistência à construção do Complexo Hidrelétrico de Belo Monte, além da atuação na defesa dos direitos humanos. As evidências dos fatos levaram à conclusão de que este crime tem ligação direta com interesses da União, devendo ser investigado por instituições federais e processado pela Justiça Federal. Segundo a Fetagri, também foi denunciado o trabalho "desinteressado e negligente da Polícia Civil". Em apenas nove dias, coordenado por dois delegados, o trabalho da Polícia "desvendou" um crime de alta complexidade, indiciando uma pessoa pela prática de crime de furto e homicídio qualificado, tendo como base somente um termo de confissão do indiciado, o que, aliás, foi tomado por meio de tortura, segundo o acusado. "Foi um relatório inconsistente, que levou o Ministério Público Estadual a não apresentar denúncia e requisitar novas deligências. Representantes da família e amigos da vítima já apresentaram à Polícia vários elementos, nomes e fatos que apontam para um assassinato por encomenda, envolvendo grandes interesses dos latifundiários e corruptos da região em detrimento de interesses da União". A Fetagri acrescenta que as denúncias já foram feitas ao Ministério da Justiça em Brasília, que se comprometeu em tomar providências. A decisão do Ministério Público Federal "acende a esperança de que este caso, passando para a esfera federal, possa ser apurado com mais responsabilidade, e que os verdadeiros culpados - executor e mandantes -, sejam julgados e condenados". Carlos Mendes
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