Queimadas fazem aumentar concentração de gás tóxico - 22/07/2002
Local: Cuiabá - MT
Fonte: 24 Horas News
Link: -
Um dado preocupante para a humanidade e um alerta maior para as autoridades. As queimadas em Mato Grosso estão contribuindo de forma direta para o aumento das concentrações de ozônio troposférico, o 0³, considerado um gás tóxico para as árvores e serem humanos, além de contribuir diretamente para o efeito estufa. A concentração de gás já é a mesma emitida por áreas urbanas poluídas, como a cidade de São Paulo. "As concentrações normais de ozônio na floresta são de 10 a 12 ppb (partes por bilhão)", explicou o físico Paulo Artaxo, da Universidade de São Paulo (USP), que coordena os estudos de química atmosférica do Experimento em Grande Escala da Biosfera-Atmosfera na Amazônia, o LBA, cujos dados foram apresentados na Conferência Científica realizada em Manaus (AM). Durante as máximas de queimadas essas concentrações vão a 100 ou 120 ppb. Mato Grosso foi citado pelo físico ao lado de Rondônia e Pará. O O³ é um gás de duas caras. Na estratosfera, camada da atmosfera acima de 12 quilômetros de altura, é benéfico e forma a célebre camada de ozônio, que filtra os raios ultravioleta do Sol e cujo colapso sobre o continente antártico os cientistas não previram. Na troposfera, ou baixa atmosfera, o gás é um poluente. Ele causa as irritações nos olhos e mucosas que vitimam habitantes das grandes cidades - além de diversas internações nos períodos mais secos. Nas árvores da floresta, ele enrijece o tecido celular, reduzindo a fotossíntese. "A planta fixa menos carbono e cresce menos", relata Artaxo, em reportagem publicada pelo caderno de Ciência do jornal "Folha de São Paulo". Os cientistas, segundo o jornal, já sabem há algum tempo que as queimadas causam aumento no ozônio. Devido à toxicidade dessa molécula para as plantas, a floresta tem uma espécie de mecanismo autolimpante, que impede a formação de grandes quantidades do gás. "Quando você converte floresta para pastagem, transforma a química da atmosfera para uma que favorece a produção de O³", disse Paulo Artaxo. O problema era que ninguém sabia da gravidade do quadro até o LBA começar a medir o ozônio nos três estados campeões de queimadas - Rondônia, Mato Grosso e Pará - em 1998. De posse de uma série de dados que vai de 98 a 2001, o grupo de Artaxo construiu modelos de computador para prever o que aconteceria com as concentrações do gás no futuro. "O "background" (a média) do ozônio passará para 30 a 40 partes por bilhão, valor semelhante ao de áreas do Estado de São Paulo", afirmou o pesquisador. Ele diz que não dá para prever exatamente quando isso ocorrerá. "Certamente não vai ser ano que vem. Mas tampouco será só daqui a cem anos". Como se não fosse um problema em si, o aumento do O³ ainda deve causar uma reação em cadeia na atmosfera cujos efeitos para o clima do planeta são imprevisíveis, segundo relata a Folha. É que o ozônio "malvado" da baixa atmosfera é responsável pela quebra do OH, um radical considerado uma espécie de detergente natural do ar. Essa molécula, altamente reativa e de meia-vida de um milionésimo de segundo, ajuda a retirar da atmosfera outros vilões, como o metano (o segundo maior causador do efeito estufa) e o tóxico monóxido de carbono. Uma vez que o excesso de ozônio elimina o OH, ninguém sabe o que acontecerá com o metano e o monóxido de carbono na região amazônica. Mas as grandes prejudicadas pelo aumento do ozônio serão mesmo as plantas que restarem em pé na floresta. Segundo Paulo Artaxo, na matéria assinada pelo jornalista Cláudio Ângelo, para cada 10 ou 20 partes por bilhão adicionais do gás, ocorre uma perda da produtividade vegetal que não é quantificada para a Amazônia. E, claro, a agricultura na região - ironicamente, a maior responsável pelo processo - também será atingida. Embora não haja números, o físico da USP cita um estudo feito na China que descobriu que o ozônio estava causando perdas de bilhões de dólares à produção agrícola. "A China passou, então, a adotar um monitoramento rigoroso desse gás", afirmou o pesquisador. Resta saber se os fazendeiros amazônicos estarão dispostos a evitar mais poluição - ou a pagar para ver.
|