busca avançada
English Newsletter
Amigos da Terra - Amazônia Brasileira
Negócios Sustentáveis
Eco-Finanças
Compradores de Produtos Florestais Certificados
Manejo Florestal.org
Projeto Rádio Amazônia
Iniciativa Brasileira

Pólo Moveleiro de Xapuri abre primeira loja no Acre - 07/07/2002

Local: Rio Branco - AC
Fonte: Página 20
Link: http://www.pagina20.com.br/


Mobiliários são construídos com madeira certificada extraída do seringal onde nasceu Chico Mendes

Foi inaugurado nesta sexta-feira em Xapauri, a 180 km de Rio Branco, a primeira loja de peças para mobiliário e decoração feitas com madeira certificada no Pólo de Indústrias Florestais de Xapuri (Piflor).  “A Princesinha do Acre” agora conta com um espaço exclusivo para exposição e venda dos trabalhos feitos pelos mais de 200 jovens artesãos-marceneiros formados nos cursos oferecidos pelo projeto Pólo de Indústrias Florestais.  Uma segunda loja está em vias de ser aberta também em Rio Branco, provavelmente em um Box do Aeroporto Internacional.

As peças de mobiliário e decoração produzidas em Xapuri já estão expostas em diversas lojas de São Paulo, Salvador, Hanover (Alemanha) e Nova York, entre outras cidades.  Mas estava faltando uma loja no Estado, principalmente em Xapuri, onde a movimentação de turistas é mais freqüente.

A cidade recebe em média 30 turistas todo mês.  Eles fazem visitas à casa e à Fundação Chico Mendes, caminhadas nas trilhas do projeto Cachoeira (onde há o manejo da madeira certificada), visitam o túmulo de Chico Mendes e o museu da Casa Branca, espaço cultural onde ocorre uma série de atividades e onde o turista pode também ver e comprar nas exposições de artesanatos da cooperativa Mãos de Mulher.  A loja inaugurada sexta-feira fica anexa à Casa Branca.  Será mais uma opção para o visitante conhecer e adquirir os produtos da floresta.

O Pólo Moveleiro de Xapuri tem um ano e meio de existência.  Já ofereceu cinco cursos de técnica de movelaria e disign para mais de 200 jovens de Xapuri, todos na faixa etária entre 18 e 25 anos.  Eram rapazes e moças que até pouco tempo atrás não tinham grandes perspectivas profissionais e viviam as dificuldades comuns aos jovens do interior.  Agora são profissionais de mão cheia.  Desenvolvem trabalhos ao nível dos grandes marceneiros do país.  Alguns deles foram para a Itália receber treinamento no maior centro industrial de móveis do mundo.  Outros também foram para São Paulo se capacitar.  A maioria deles hoje está trabalhando na área.  Xapauri conta hoje, além do pólo, com seis marcenarias.

Mas o sonho dos idealizadores do projeto vai mais longe ainda.  Na última sexta-feira, também foi inaugurada a Oficina-Escola de Marcenaria do Piflor.  Será uma escola-empresa permanente onde os alunos receberão bolsa escola e em dez meses serão formados não só para o manuseio técnico com a madeira, mas, sobretudo, para serem criadores de oportunidades de negócios, preparados para desenvolver o perfil de empreendedores.

“O nosso projeto aqui é a criação de uma incubadora de empresas.  Acreditamos que o maior potencial do Acre está na indústria florestal.  Por isso temos certeza que grandes empresas podem ser criadas aqui mesmo no estado e exportar nossos produtos para o mundo inteiro.  Na Itália, depois da Segunda Guerra, a indústria moveleira foi a responsável pelo soerguimento da economia do país.  Eles desenvolveram um complexo industrial forte que foi capaz de acumular o capital necessário para investimentos em outras áreas”, disse o deputado estadual Ronald Polanco (PT-AC).

Pólo era apenas um sonho há 7 anos

Em 1995, sete anos depois da morte de Chico Mendes, um grupo de políticos, religiosos e líderes comunitários de Xapuri, entre eles Ronald Polanco, Júlio Barbosa, padre Luiz Ceppi, Marina Silva e Dom Moacir, entre outros, reuniu-se em torno de um sonho: encontrar alternativas para utilização sustentável das riquezas da floresta amazônica.

As queimadas e derrubadas de árvores atingiam índices alarmantes e assustava os seringueiros e ribeirinhos que viviam da exploração das matas.  Enquanto isso, na cidade de Xapuri a juventude permanecia desempregada, sonhando abandonar suas origens para procurar novas possibilidades em outras terras.

Mas, aquelas pessoas, que se reuniram para dar continuidade ao trabalho de Chico Mendes, tinham outros sonhos a serem realizados lá mesmo.  Queriam utilizar as riquezas da floresta para melhorar a vida das pessoas.  E viam que as riquezas estavam virando cinzas, ou, quando não, se estragavam sem que se encontrasse uma forma de aproveitamento daquele ‘ouro’ que se perdia aos olhos de todos.

Acreditavam que poderiam apresentar alternativas e oferecer oportunidade de emprego e renda para a população pobre da cidade, a partir dos frutos da floresta, sem a exploração predatória que há anos vinha se consolidando no local.  O combate aos modelos degradantes era preciso.  Várias vítimas já tinham sido feitas, mas o sonho tinha de ser perseguido.

Hoje, exatamente sete anos depois dos primeiros encontros, o sonho é uma realidade.  Deu apenas alguns passos, mas o que era, para alguns, uma utopia inatingível virou uma perspectiva real de grandes negócios e geração de riquezas.  Aqueles sonhadores de sete anos atrás conseguiram reunir uma série de parcerias (com o governo estadual, a Suframa, Sebrae, comunidade) e criaram o Pólo de Indústrias Florestais.

O pólo inclui várias atividades de extrativismo e de beneficiamento.  Há os galpões de marcenaria, uma região na floresta de manejo sustentável (projeto Cachoeira) e as usinas de castanha.

Segundo o deputado estadual Ronald Polanco (um dos principais envolvido na realização do projeto desde o início), a chegada ao poder do Governo da Floresta, na pessoa do governador Jorge Viana, e a atuação da senadora Marina Silva, eleita em 94, foram os acontecimentos mais importantes para que o sonho e a luta das pessoas chegasse ao estágio que se encontra hoje.  A idéia de transformar a economia da floresta no grande potencial de riquezas para o povo começou a ser realizado.  “Estes são apenas os primeiros passos.  Ainda vamos transformar o nosso estado num centro industrial da floresta”.

Diocese foi fundamental

A sugestão de incentivar a criação de marcenarias em Xapuri partiu do padre Luiz Ceppi em 95.  Na época, ele era vigário da paróquia de São Sebastião.  Por meio de Dom Moacir, o então bispo de Rio Branco, padre Luiz Ceppi e os envolvidos no projeto, conseguiram manter contato com profissionais italianos para que viessem ministrar cursos na cidade.

Padre Luiz e Dom Moacir eram conhecedores da realidade da indústria moveleira da Itália.  Conheciam a história do país que teve sua economia destruída pela guerra e conseguiu recupera-la com a produção de móveis.  Perceberam então que esta seria uma alternativa viável para o Acre e deram o pontapé inicial, que através da participação de diversos setores sociais e políticos conseguiram chegar até aqui.

Sexta-feira última, na inauguração da Oficina-escola de marcenaria do Piflor, o prefeito Julio Barbosa lembrou o começo difícil do projeto.  “Naquele momento talvez nós não tivéssemos a certeza que depois de sete anos estivéssemos aqui vendo alguns passos concretos sendo dados”.

Nilson Mendes, coordenador do manejo florestal do projeto Cachoeira, disse que “muitos de nós no início não acreditávamos que fosse possível fazer o que estamos fazendo hoje”.  Ele falou que antes muitas madeiras que só serviam para fogo, ou não serviam para nada se estragavam na floresta.  Mas agora são aproveitadas no projeto Cachoeira.  Viram peças de decoração para serem vendidas na Europa e Estados Unidos.

De acordo com o prefeito Júlio Barbosa, a idéia para a continuação do projeto é de se viabilizar também uma universidade florestal onde se pesquise sobre as espécies de árvores, suas qualidades e atributos para que possamos melhor utiliza-las.  Além disso, ele lembra que uma universidade florestal desenvolveria profissionais competentes nas áreas de engenharia e design, importantíssimos para a consolidação do pólo.





© Amigos da Terra - Amazônia Brasileira - conheça a nossa política de privacidade