Cristalino: o fim - 18/06/2004
Local: Belém - PA
Fonte: Jornal Pessoal
Link: http://www.lucioflaviopinto.com.br
Numa mesma semana, a antiga Fazenda Cristalino foi referência - por motivação distinta - no Brasil e na China. Na China, integrantes da comitiva do presidente Lula tentavam acertar um programa de cooperação sino-brasileiro em matéria nuclear. O Brasil entraria com o urânio, num segundo momento já enriquecido, para ser inicialmente beneficiado na China. Uma das jazidas do minério está localizada exatamente na área dessa fazenda, no sul do Pará. A China não dispõe de urânio suficiente como combustível para suas térmicas. Além disso, faz parte do - cada vez mais - fechadíssimo Clube Atômico.
Simultaneamente, o Diário Oficial da União publicava decreto do governo federal desapropriando a fazenda e destinando parte da sua área para o assentamento de mais de 1.300 famílias que já estavam morando e trabalhando no local. Para que a desapropriação pudesse ser legalizada, o Ministério de Ciência e Tecnologia teve que preparar um laudo revogando a condição de "área de monopólio nuclear" em que a Cristalino havia sido definida.
Esse é um final totalmente imprevisível para uma história que começou quase 30 anos atrás, quando a poderosa Volkswagen, uma das maiores empresas do mundo, submeteu à Sudam um projeto para a criação de gado numa área de 139 mil hectares, em Santana do Araguaia, a Fazenda Vale do Rio Cristalino. Seria uma das mais modernas e produtivas fazendas da região. Apesar do título, a Volks, que até então resumia sua competência à montagem de veículos automotores, desde a década de 30 do século passado, na Alemanha, botou fogo na floresta, usando para isso peões que eram recrutados e obrigados a trabalhar por "gatos", que os sujeitavam a condições de verdadeira escravização.
O satélite americano Skylab detectou o fogaréu, o maior que a Nasa, a agência especial dos Estados Unidos, já havia registrado até então. Foi um escândalo. O IBDF, antecessor do Ibama, multou a empresa num valor superior ao do seu próprio capital por desmatar sem autorização legal, mas acabou não aplicando a multa. A fazenda, mesmo assim, não deu certo. A Volks vendeu-a ao grupo Matsubara, do Paraná, que também passou a propriedade em frente. Quando os posseiros a ocuparam, ela já estava nas mãos de um quarto dono. A propaganda inicial já tinha sido esquecida e a primitiva Fazenda Vale do Rio Cristalino já fora reduzida a Fazenda Cristalino, um nome que tem algo a ver com a riqueza do seu subsolo, muito mais importante do que o próprio solo.
Se o assentamento vai dar certo, em substituição ao empreendimento pecuário, ninguém sabe. As invasões seguem mais diretrizes políticas e sociais do que qualquer coisa ligada à aptidão da terra e a competência de quem a vai explorar. O ato de dupla dimensão do governo federal, liberando a condição de depósito de minério radioativo do local para seu uso agrícola, não permitiu saber se as duas atividades serão compatibilizadas ou se um uso vai ser sacrificado por outro. A que preço e com qual fim, ninguém perguntou. E também ninguém se interessou em esclarecer de moto próprio. Como de hábito, aliás, na Amazônia.
Lúcio Flávio Pinto
|