A histórica e reveladora seca do Amazonas
Relato de Mario Menezes, agrônomo, economista e colaborador local de Amigos da Terra - Amazônia Brasileira, sobre a vazante no Amazonas e seus reflexos

" É perceptível a apreensão geral causada pela seca que assola o Amazonas. Em minhas viagens às regiões de Lábrea (rio Purus) e Urucurituba (rio Amazonas) e andanças pelo entorno de Manaus, percebo que este não parece ser apenas um ano atípico de forte vazante. Não tomo meu tempo de Amazônia como referência: as pessoas mais antigas dessas regiões estão assustadas com o que estão vendo e vivendo ao longo dos rios.
Abaixo de Itacoatiara (230 km de Manaus), os bancos de areia no meio do Amazonas formam praias imensas, que os moradores também nunca tinham visto. Há trechos em que elas estão quase fechando paranás (braços ou furos do rio).
Nos rios Madeira e Purus, o transporte está bastante dificultado, com encalhes freqüentes de balsas, e grandes prejuízos até para os produtores e transportadores de soja em grão para o Porto de Itacoatiara. Em direção ao Acre, no rio Purus, só se navega com embarcações muito pequenas.
No Alto Solimões, entre Tefé e Tabatinga, a 1.000 km de Manaus, o calado do rio chegou a 2 m, historicamente o mais baixo da região (em secas normais é de 4,5 m), obrigando os barcos a navegarem somente durante o dia e Tabatinga a mudar seu porto de lugar.
Os lagos e braços de rios estão se isolando, com grande mortandade de peixes (e risco de contaminação das pessoas que se alimentarem desses peixes), com esperada baixa na reprodução deste ano e na produção pesqueira nos próximos anos, uma vez que a maioria das espécies de peixes se reproduz em lagos e não consegue chegar até eles.
Doenças contagiosas e virais como o Cólera - que matou 159 pessoas entre 1991 e 1998 -, o Rotavirus (latente no sul do estado, com 11 mortes em Ipixuna), Doenças Diarréicas Agudas (DDA), Hepatite A e a Febre Tifóide podem se proliferar, em função da maior concentração desses patógenos causada pela diminuição drástica do volume de água nos rios e lagos e pela escassez de água potável, que já começa a se verificar no interior do estado.
É verdade que o Amazonas é um estado onde a água é um bem mais presente na vida de sua população do que em qualquer outro da Amazônia e do Brasil. Assim, os reflexos de sua escassez são naturalmente mais agudos e mais rapidamente percebidos. Entretanto, - e até por essa razão - essa sua particularidade também pode ser um importante indicador do agravamento dos problemas ambientais que, invariavelmente, repercutem na quantidade e qualidade da água disponível nos continentes. No Brasil, os desmatamentos respondem por 75% das emissões de gás carbônico, e é bem provável que respondam, também e em boa medida, pela seca histórica que assola o maior estado brasileiro."
Créditos das fotos na home:
Foto 1: Greenpeace/Ana Paula Jatahy; Foto 2: Greenpeace/Alberto César Araújo; Foto 3: Greenpeace/Ana Paula Jatahy; Foto 4: Greenpeace/Alberto César Araújo
Veja também:
Imagens da seca na Amazônia no site do Greenpeace
Veja as imagens produzidas pela equipe do Greenpeace que visitou áreas afetadas pela seca
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