Estudo do pesquisador Leandro Ferreira do WWF-Brasil
Resumo
O bioma Amazônia abrange no Brasil uma área de 4.871.000 km2. Apesar de sua grande dimensão, da riqueza de espécies e diversidade de habitats, as lacunas no conhecimento sobre flora, fauna e processos ecológicos nesta região são enormes, tornando o processo de escolha de áreas para a conservação da biodiversidade um desafio.
Existem algumas propostas para a seleção de áreas prioritárias para a conservação da biodiversidade na Amazônia, podendo as mesmas serem agregadas em duas linhas metodológicas: uma baseada na distribuição de espécies e outra na distribuição de ecossistemas.
Os objetivos deste estudo são: (1) analisar a representatividade das unidades de conservação e outros tipos de áreas protegidas no bioma Amazônia, quanto aos principais ecossistemas e tipos de habitats existentes na região, usando como unidade biogeográfica a ecorregião; e (2) propor a ampliação do atual sistema de unidades de proteção integral, usando como unidade biogeográfica as ecorregiões do bioma Amazônia, através do método de análise de lacunas, na identificação das paisagens ainda não incorporadas ou com menos de 10% de sua área dentro de unidades de conservação de proteção integral.
O bioma Amazônia é formado por 23 ecorregiões, representando cerca de 4,1 milhões de km2 (48,1% do território brasileiro), sendo uma das principais características usadas na separação das ecorregiões os grandes interfluvios. A porcentagem do bioma ocupada por cada ecorregião varia de 0,01% a 16,2%. Somente três ecorregiões, ocupam extensões maiores que 10% do bioma; a maioria das ecorregiões, 15 (65,2%) ocupam menos de 10% do bioma.
Existem atualmente cerca de 51 unidades de conservação de proteção integral na Amazônia, ocupando 4,12% do bioma; 77 unidades de conservação de desenvolvimento sustentável ocupando 8,99% do bioma; e 259 terras indígenas, ocupando 22,86% do bioma. A distribuição das 51 unidades de conservação de proteção integral não é homogênea entre as 23 ecorregiões que compõem o bioma Amazônia. Destas, 3 ecorregiões não apresentam nenhuma unidade de conservação de proteção integral, 12 apresentam menos de 5% de sua área em unidades de conservação de proteção integral, 5 apresentam entre 5 a 20% de sua área em unidades de conservação de proteção integral, e somente 3 ecorregiões apresentam mais de 20% de sua área em unidades de conservação de proteção integral. Desta forma, o sistema de unidades de conservação de proteção integral no bioma Amazônia é ainda insuficiente para garantir a integridade da grande diversidade de ecossistemas existentes. As ecorregiões mais importantes para a criação ou ampliação do sistema de unidades de conservação são aquelas que: (a) não possuem nenhuma área protegida em unidades de conservação de proteção integral e estão com alto nível de desmatamento e (b) possuem menos de 10% de suas áreas em unidades de conservação federais de proteção integral.
Foi feita uma análise de lacunas do sistema de unidades de conservação de proteção integral em relação às ecorregiões, usando um mapa de paisagens, resultante da combinação de solos e vegetação. Este mapa foi criado a fim de substituir a falta de informação sobre a distribuição de espécies no bioma. Desta forma, hipotetiza-se que as paisagens amazônicas são um elemento indireto de medição de complementariedade dos padrões de distribuição, riqueza e diversidade de espécies neste bioma.
O número de paisagens nas 23 ecorregiões que compõem o bioma amazônico é de 392, variando de 8 a 175 por ecorregião. Contudo, o número de tipos de paisagens em unidades de conservação de proteção integral variou de 0 a 81. Dos 392 tipos de unidades de paisagem, 239 (61%) não estão representados em nenhuma das 50 unidades de proteção integral existentes do bioma e 95 (24%) apresentam menos de 10% de sua área em unidades de proteção integral, ou seja, as unidades de paisagem com menos de 10% de sua área representadas em unidades de conservação do bioma Amazônia totalizam 85%. Desta forma, semelhante à baixa representação das unidades de conservação em relação às ecorregiões, o sistema atual de unidades é insuficiente para proteger a grande diversidade de tipos de paisagens existentes nas 23 ecorregiões que compõem o bioma Amazônia. Os tipos de unidades de paisagem mais importantes a serem incorporadas nas novas unidades de conservação de proteção integral, em cada ecorregião do bioma Amazônia, são aquelas que não estão ainda incorporadas ou possuem menos de 10% de suas áreas em unidades de conservação de proteção integral. Contudo, é necessário fazer uma análise individual da representação das paisagens em cada ecorregião. Este enfoque é importante porque as ações prioritárias para a conservação da biodiversidade no bioma Amazônia tem que ser estabelecidas em cada ecorregião individualmente, porque cada ecorregião é uma unidade biogeográfica distinta, resultante de processos históricos, evolutivos e ecológicos, apresentando deste forma, componentes bióticos e abióticos únicos.
Este sistema deve, necessariamente, incluir todos os tipos de paisagem existentes na ecorregião, dando-se especial atenção àqueles ambientes únicos e de distribuição restrita, pois estes são os que podem abrigar, com maior probabilidade, elementos bióticos singulares. As unidade de conservação em cada uma das ecorregiões devem ser conectadas através de corredores incluindo unidades de conservação de uso sustentável e as terras indígenas, desde que haja um monitoramento permanente da qualidade ambiental destas áreas.
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