Data: 08/05/2008
Fonte: Amazonia.org.br
Há quase duas décadas,
índios se mobilizaram frente aos projetos de barragens
no Xingu. Com a retomada desses planos, mais de mil
indígenas se reunirão em novo encontro, a ser realizado
neste mês em Altamira.
Filippo Cecilio
Thais Iervolino
A índia Tuíra, da tribo Kayapó, aproxima-se do então
diretor da Eletronorte e hoje presidente do grupo Eletrobrás,
José António Lopes e, diante das 3 m il
pessoas presentes no I Encontro dos Povos Indígenas,
mais conhecido como o Encontro de Altamira, encosta seu
facão no rosto do representante governista. Este foi
sem dúvida um dos episódios mais marcantes do evento
ocorrido na cidade de Altamira (PA), e deixou claro que
os índios não mais aceitariam ser subjugados por decisões
de interesse econômico do governo.
O ano era 1989. O objetivo do evento era mostrar o
claro descontentamento existente com a política de
construção de barragens ao longo do Rio Xingu. A manifestação
pretendia ainda inserir a comunidade indígena nas tomadas
de decisões referentes à Amazônia. À época os índios
ficavam (e ainda ficam) à revelia de todo o processo. "Naquele
momento havia uma forte tentativa de acabar com os direitos indígenas.
Por isso,
os índios foram até o Congresso, posicionaram-se contra a construção das hidrelétricas
e o Encontro de Altamira ganhou uma proporção internacional: o Banco Mundial
suspendeu o empréstimo de U$ 500 mi para a construção da barragem - o que acabou
resultando numa vitória para os índígenas", explica
Glenn Switkes, diretor do Programa na América Latina
da International Rivers.
Cenário atual
O ano agora é 2008. Apesar de passadas quase duas décadas, a situação não é tão
diferente. Embora o Banco Mundial tenha cancelado um empréstimo para a construção
das barragens, nos últimos anos a política energética brasileira concentrou suas
ações nos rios da Amazônia: ao todo, 70 grandes barragens estão sendo planejadas
para a região até ao ano 2030. Os planos prevêem a construção daquela que seria
a terceira maior barragem do mundo: a hidrelétrica de Belo Monte, com capacidade
de 11181 MW, no Xingu.
Paralelamente, a batalha pela criação da Reserva Extrativista do Médio Xingu
continua. O entrave está justamente na aparente incompatibilidade entre a criação
da Resex - única área que ainda falta ser
reconhecida para que se feche o chamado "mosaico de áreas protegidas" que
foi montado na região da bacia
do rio - e grileiros que pretendem utilizar de maneira ilegal os recursos naturais
locais.
Maio: mais luta contra as hidrelétricas no Xingu
Em oposição às barragens, mais de mil índios, ribeirinhos,
organizações e movimentos sociais estarão presentes
no II Encontro dos Povos Indígenas, que acontecerá
de 19 a 23 de maio em Altamira, no Pará. Segundo Switkes,
que também é um dos organizadores do encontro, a idéia
de um novo evento surgiu em reuniões feitas entre os
índios da região. "Os Kayapós se reuniram com outras tribos para
discutir os problemas do Xingu, que estão ficando cada vez mais sérios. No ano
passado houve uma grande reunião em Altamira e surgiu o interesse em fazer um
grande encontro com todos os povos para se debater a questão das hidrelétricas",
conta.
Para o novo encontro em Altamira serão convidadas organizações
internacionais, especialistas e representantes do governo. "O encontro vem num momento
em que estão em curso novos estudos para a construção da hidrelétrica no Xingu.
Nossa preocupação é que, com a usina de Belo Monte, a sobrevivência de 500 povos
indígenas esteja ameaçada", explica Switkes.
Problemas de longa data
O debate sobre a construção das hidrelétricas na região vem desde 1975, quando
foi criada a Eletronorte. Na época, iniciaram-se os trabalhos para o mapeamento
do rio e seus afluentes e para a definição dos pontos mais favoráveis para se
instalar as barragens.
Em 1980, quando foram finalizados os estudos sobre a região
do Xingu, o governo previu a necessidade de sete instalações, que gerariam 19
mil megawatts (MW), metade da capacidade instalada nas hidrelétricas brasileiras
à época. Contudo, essas usinas representariam o alagamento de mais de 18 mil
km² e atingiriam sete mil índios, de 12 Terras Indígenas, além dos grupos isolados
da região. (fonte: ISA - Instituto Sócio Ambiental).
Em 1988 o Relatório Final dos Estudos de Inventário Hidrelétrico da Bacia Hidrográfica
do Rio Xingu foi aprovado pelo Departamento Nacional de Águas e Energia Elétrica
(DNAEE), extinto órgão regulador do setor elétrico. Foi esse desenrolar de medidas
governamentais que motivou o I Encontro dos Povos Indígenas, em 1989, e que ficou
conhecido como Encontro de Altamira. O evento ganhou repercussão internacional,
com ampla cobertura da imprensa. Em seu encerramento é lançada a Campanha Nacional
em Defesa dos Povos e da Floresta Amazônica, que exige a imediata revisão dos
projetos desenvolvimentistas planejados para a região.
Belo Monte
Local onde o governo planeja construir a usina
Ao longo de toda a década de 1990 a discussão a respeito
das hidrelétricas, em especial a de Belo Monte, continuou
gerando polêmica e controvérsia. Nesse período ela
teve o tamanho de seu reservatório reduzido - numa
tentativa de "amansar" ambientalistas
- diversos estudos realizados, avaliando sua viabilidade, a "complementação
dessa viabilidade", aproveitamento e aplicabilidade.
O governo federal, durante todo esse período, sempre se posicionou de maneira
a sustentar a idéia de que a usina de Belo Monte representa uma obra estratégica
tanto para garantir a oferta de energia do país quanto para o desenvolvimento
da região. Em 2001, o Ministério Público moveu ação civil pública para suspender
os Estudos de Impacto Ambiental (EIA) de Belo Monte já que a metodologia aplicada
no preparo do documento era questionável. A obra deveria ter sido licenciada
pelo Ibama (Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis)
e não pelo governo do Pará, tratando-se o Xingu de um rio pertencente à União.
Em 2002 - num gesto que viria a ser repetido por Lula
em 2007, também em defesa de uma hidrelétrica - o então
presidente Fernando Henrique Cardoso afirmou que a
ação dos ambientalistas atrapalhava o desenvolvimento
do país: "Além do
respeito ao meio ambiente, é preciso que haja também respeito às necessidades
do povo brasileiro, para que a 'birra' entre os diferentes setores não prejudique
as obras, porque elas representarão mais emprego".
Reserva Extrativista
A Resex é um faixa de terra que ocupará 303 mil hectares ao longo da margem esquerda
do rio, chegando perto de Altamira, e representa a possibilidade de regularização
fundiária, beneficiando e trazendo segurança às famílias que vivem nas proximidades.
Recentemente lideranças da associação de moradores locais se dirigiram ao Ministério
Público Federal para denunciar as constantes ameaças de morte que vem sofrendo
por parte de jagunços enviados por grileiros da região.
Outro ponto condicionante que emperrava a assinatura do decreto que cria a Reserva
Extrativista era o veto que Ministério de Minas e Energia havia dado à ação antes
do término do inventário hidrelétrico do Xingu, já que a área da Resex teria
uma parte inundada pelo lago de Babaquara. O novo estudo que será lançado em
breve pela Aneel (Agência Nacional de Energia Elétrica) deverá indicar pelo barramento
único na usina de Belo Monte, derrubando um dos obstáculos para a criação da
Resex. |